Senhora Miriam Belchior e a Greve dos Professores

FOLHA DE SÃO PAULO São Paulo, domingo, 17 de junho de 2012

Elio Gaspari

A comissária se esqueceu do passado Miriam Belchior adotou o ‘modelo Scania’ na negociação com professores e produziu uma ruína A comissária Miriam Belchior, ministra do Planejamento, conseguiu uma proeza. Veterana militante do PT, provocou uma greve de professores das universidades federais que durou um mês e poderá terminar com atendimento da principal e justa reivindicação dos servidores. Desde agosto do ano passado, o Planejamento sabia que os professores reivindicavam um plano de carreira semelhante ao que existe no Ministério da Ciência e Tecnologia. Estava aceso o sinal do risco de greve. O assunto vinha sendo negociado por Duvanier Paiva Ferreira, secretário de Recursos Humanos da doutora Belchior. Em janeiro, Duvanier foi acometido por três desgraças: teve um infarto, tinha o plano de saúde dos servidores federais e era negro. Foi a duas casas de saúde, daquelas que têm nomes de santas (Lúcia e Luzia) e não foi atendido. Morreu. A prudência recomendava que a negociação fosse imediatamente retomada, mas empacou. A ideia da greve avançou e ela estourou no dia 17 de maio. Pararam 14 universidades. Neste momento, a comissária Miriam adotou o “modelo Scania” de negociação. O governo só conversaria com o retorno ao trabalho. Foi reforçada por çábios da Advocacia-Geral da União que defendiam a decretação da ilegalidade do movimento. Novamente o “modelo Scania”, mas felizmente a proposta foi rebarbada. A greve expandiu-se para 49 instituições, parando 55 mil professores. Depois de um mês, com um prejuízo de R$ 1 bilhão para a Viúva, a perda de aulas para cerca de 600 mil estudantes, o governo se reuniu com os grevistas. Na melhor técnica da marquetagem, a comissária Belchior e o ministro Aloizio Mercadante (tão frequente nas cenas de comitivas presidenciais) não apareceram na fotografia. O governo apresentou a promessa de um plano de carreira semelhante ao do Ministério da Ciência e Tecnologia e informou que oficializará a proposta nesta terça-feira. A ministra é futricada na Esplanada dos Ministérios por colegas que se queixam dela por não devolver telefonemas no mesmo dia e por marcar reuniões com 15 dias de espera. Até aí, pode ser a maledicência de Brasília. A poderosa comissária tinha 20 anos em 1978, quando os barões da indústria automobilística e a diretoria da fábrica de caminhões Scania souberam que 3.000 operários haviam entrado em greve. O patronato disse que só conversaria quando a patuleia voltasse ao trabalho. Buscaram com sucesso a decretação da ilegalidade da paralisação. Quebraram a cara. A greve alastrou-se pelo ABC, parando 100 mil operários em 55 empresas. Ao final, cederam e assim nasceu um novo personagem na política brasileira: Lula. Dois anos depois, Miriam e seu namorado, Celso Daniel, ajudaram a fundar o Partido dos Trabalhadores.

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