Uma juventude que prega o ódio contra as greves: onde isso nos levará?!

Em tempos da hegemônia consumista da CRASSE média, onde IPI reduzido se torna política pública da felicidade e diploma é a única coisa que importa para jovens e adolescentes, as greves passam a ser alvo de ódio e temor por grande parte desta nossa sociedade.

Historicamente, as greves já foram aplaudidas e ovacionadas pelos grupos sociais que nunca tiveram chance de serem ouvidos pelas elites locais. No entanto, a sensação, isso mesmo, a sensação que tenho a cada dia que passa, é que essa juventude que se diz esperta, audaciosa, que compreende a tudo e a todos, que tem pressa para dizer o que sabe e pressa para adentrar ao mundo do poder de compra, tem asco e nojo da palavra greve.

A grande e esmagadora maioria desta juventude que se diz libertária esta cada vez mais atrelada a um mundo naturalizado, onde fazer um curso universitário o mais rápido possível, pois este é apenas um trâmite burocrático-legal para sua inserção no mercado de trabalho, é o único e exclusivo objetivo. Mercado este que passa a ser espaço de cor, vida e aromas que lhes permitirão a felicidade e o gozo.

Assim, faço alguns questionamentos sobre as universidades públicas: para quê educação atrelada à pesquisa e à extensão? para quê laboratórios equipados e “modernos”? para quê professores da área de humanas (estes são críticos e “viajam” muito!!! que existam apenas os professores técnicos, eles são nossos passaportes para a felicidade do mercado de trabalho)? para quê prédios com boa infraestrutura (eu preciso apenas de uma cadeira e um professor que seja pouco exigente, ok!?)? para quê professores exigentes (quero passar sem dor pela universidade, ok!?)? para quê bibliotecas equipadas (baixo tudo na internet mesmo!!)? para quê banheiro limpos? para quê centros acadêmicos (ah, este é para festas!!!)? para quê sindicato (para me tirar as MINHAS férias)… bla bla bla bla….

Uma juventude que bate no peito e arrota poder. O poder da geração Y, que se movimenta e atua com um IPOD, FB e Twitter, achando que os problemas do mundo podem ser resolvidos com curtidas e compartilhamentos.

Uma juventude que quebra tradições como se isso fosse fazer a revolução, mas ao mesmo tempo normatiza uma sociedade de exclusão, individualismo e escravismo ao consumo.

E as greves passam a ser odiadas. E porquê? Me parece simples a resposta, embora não seja nem um pouco. Mas arrisco a dizer, que as greves atingem a cada um e a cada uma naquilo que tem de mais nobre nos dias de hoje: EU sei, EU posso, EU faço. Uma greve é um processo coletivo, onde o EU quase não existe. As decisões são coletivas (ou seja, os grupos que tem mais força ou querem ter mais força ganham), o processo coletivo não respeita a velocidade do EU, o EU é estuprado, é usurpado da sua condição de liberdade e libertação. O EU esta morto. Contrariamente, na vida de consumo (não querendo utilizar Bauman, ok!!!), o EU esta iluminado, no palco das celebridades, o EU é único e exclusivo.

E é isto que incomoda e faz com que esta juventude tenha ódio, rancor, medo, asco e nojo das greves.

E a questão permanece: onde isto nos levará?

10 thoughts on “Uma juventude que prega o ódio contra as greves: onde isso nos levará?!

  1. Luciano diz:

    O problema, prezado professor, é que a greve enquanto instrumento de luta no Brasil está sendo BANALIZADA. Agora mesmo os professores que voltaram da greve instrumentalizada pelo PSTU e PSOL retomaram seus postos de ao menos discutir como será a reposição de aulas com os alunos. Greve não é dogma!

    • michelato diz:

      Luciano, quem discute a reposição das aulas não são os comando de greve e muito menos os sindicatos, são os conselhos universitários. ok!

  2. João diz:

    Ótimo texto, professor! Parabéns!
    É triste constatar esse ódio dos jovens. E eu, enquanto jovem, presenciei inúmeras vezes esse ódio. Não só nesse último movimento grevista mas também em quase todos os movimentos dentro da universidade (seja no mov. estudantil, ou nos movimentos puxados pelo Sintufes e pela Adufes).
    As análises dos movimentos grevistas são mais rasas que piscina de mil litros. E foram dadas soluções igualmente rasas. Os jovens estão mergulhados nos seus “Eu’s”, tratando erroneamente problemas estruturais (educação) com soluções pragmáticas.

    Obs.:A individualidade que acomete os jovens também pode ser entendida como uma herança de berço e/ou reprodução de discursos tendenciosos das grandes mídias e etc…

  3. Manni Mendeleiev diz:

    Só tenho ressalvas com o arquétipo tido da mobilização social digital. Embora haja espaço para egolatrias e cobranças por milagre, o melhorar a realidade num clique… Ainda sim é um espaço válido de reivindicação, se bem dirigida. E por favor, não estou afirmando que não exitam problemas, mas os frutos compensam os desgastes. A militância que eu vejo e participo é o modelo que eu considero o mais promissor da geração: organização horizontal, foco na causa, não em lideranças, ataque aos problemas de maneira múltipla, e o que eu gosto mais – construção coletiva de conhecimento. Que era o que deveria ser feito em ambientes universitários, segundo o que eu ouvi nos semestres que eu estudei Metodolgia do Trabalho Científico.

  4. Guilherme diz:

    excelente post, André!
    tive a felicidade de ser seu aluno aqui no PR, e seu texto me recordou as aulas (críticas) que tinhamos, e que nos davam boas análises de conjuntura.
    só chamaria a atenção para o risco da generalização do termo juventude. a juventude universitária (que imagino ser o foco da sua análise tendo em vista a greve das federais), vem crescendo em números com as políticas públicas (estas mesmas políticas como fruto, também, da pressão da sociedade civil em ações coletivas). No entanto, ainda é um número reduzido da população nacional (algo em torno de 15% ?). existe também a juventude que apoiou as greves, que possui um senso crítico e capacidade de análise histórica e social. deve ser lembrada tbm.
    Mas concordo plenamente contigo de que essa juventude (descrita por vc) é fruto desse modelo neoliberal, cujo traço mais forte é o da individualização.
    é necessário (e terrivelmente desafiador) (re)construir do discurso contra-hegemônico.

    parabéns aos professores pela luta! deram uma aula de sociologia, mostrando que em nossa sociedade, aquilo que não gera lucro, o “improdutivo” nos termos de valorização do capital, é considerado de menor importância (precarização do trabalho pelo capital).

    Grande abraço, André.

  5. breno diz:

    As midias estupram a subjetividade dos jovens, colocam medo de nao conseguir o primeiro emprego (como se isso garantisse os proximos), fazemp ressão para que seajm estagiarios, adolescentes aprendizes.
    Vi que vc é da ufes, entao tem acesso ao TN e ESTV, da pra ter noção do que eu digo (nao deve ser diferente em outros estados tb). O jornal hoje, voltado para o modelo ideal de dona de casa, entre uma receita e uma tragedia, conta um caso bem sucedido de um jovem que estudou e hoje está bem sorrindo trabalhando durante o dia, indo a aula a noite e estudando de madrugada.
    e as politicas neoliberais tao nas entrelinhas pq eu to com preguiça

  6. Breno diz:

    Segue alguns dados quantitativos da PESB (Pesquisa Social Brasileira) a título de reflexão, extraídos da obra “A cabeça do brasileiro” de Alberto Carlos Almeida. Em geral, as greves contra o governo encontra oposição de aproximadamente 44% da população e apoio de 55%. A concentração maior de opositores está entre os analfabetos, chegando ao percentual de 64%. Entre os que têm curso superior o percentual alcança apenas 14%. Surpreende essa mobilização de universitários da UFES contrariando a própria tendência constatada recentemente. na aludida pesquisa. Seria porque a greve em questão afeta diretamente suas vidas?

  7. Marcela Camargo Ribas diz:

    Não está satisfeito com o trabalho público não…vai para o privado. O problema do Brasil é que não temos um exército que ocupe as vagas qdo tem estas greves, pois se tivéssemos, o país não seria esta bagunça.

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