Do Governo Lula-Dilma para as Mobilizações Populares no Brasil

Por André Michelato Ghizelini

Quase um mês após a mobilização que deu inicio a série de manifestações pelo Brasil, algumas análises sobre este fenômeno vem sendo realizadas, para tanto uma das questões mais instigantes e que permeiam a quase totalidade dos debates atualmente, são as razões do por que as mobilizações tem se caracterizado pelas pautas difusas e pela presença dos “ultras” direita ao lado dos “ultras” esquerda.

Faixas lado a lado com conteúdos absolutamente contraditórios, como: a favor da redução da maioridade penal; contra o aborto; a favor da diversidade sexual; fora Dilma; a favor da pena de morte; extinção das polícias militares; e palmas aos militares. Foi isto que foi visto nas ruas das cidades nos grandes atos que foram realizados. E foi estes comportamentos, que muitas vezes interpretado como algo criado individualmente pelas pessoas, é que passou e se tornou uma das questões mais importantes para se entender e analisar.

No entanto, para analisar tal fenômeno, não há como estabelecer uma lógica que busque compreender apenas a partir do comportamento dos indivíduos, suas angústias, ansiedades, revoltas, insatisfações, indagações , de cunho meramente individual. Para além das sensações pessoais (que obviamente existem, não estou negando este fato), existem as condições sociais e políticas que permitem e “autorizam” que posições absolutamente contraditórias possam estar lado a lado num ambiente público de manifestação, e ainda mais, de ação coletiva, em que, teoricamente, estão lutando pelos mesmos objetivos.

Estas condições socais e políticas são “dadas” pela ambiência, que para além das relações da sociedade civil e pelos movimentos sociais, há sim a ambiência política-institucional, dada principalmente pelo Governo, e no caso brasileiro, em função do pacto federativo em vigor, pelo Governo Federal, que materializa-se nas conjugações de forças e relações políticas dadas internamente no Governo.

Um Governo que caracteriza-se por uma imensa coalizão de forças (desde 2003), que vai das forças mais conservadoras, como evangélicos (tanto progressistas e conservadores) e políticos do ex-PFL, encarnados agora no PSD, passando pelas lideranças do PMDB, mas também com forças da dita esquerda construída historicamente no Brasil, como o próprio PT e PCdoB (mesmo com críticas, o PT nasce e consolida-se como um campo da esquerda, mas que sofre alterações em função do projeto de poder). No entanto, para além das relações político institucionais, este Governo se sustenta em grande medida em função dos apoios de movimentos sociais de grande envergadura, como o MST e a Via Campesina, que já na campanha da então candidata Dilma Roussef, fez coro e voz de apoio para sua vitória.

Assim, mais do que caracterizar os Governos Lula-Dilma como conservadores ou progressistas, foi e é um governo que imprimi uma ambiência de constante DISPUTA, disputa esta que estabelece como princípio um jogo de relações que permite ora satisfazer as pautas dos conservadores, ora satisfazer as demandas dos setores progressistas e do campo da esquerda.

No entanto, os setores mais a esquerda da esquerda, não corroboram com esta avaliação, pois partem do pressuposto que o PT já faz parte da direita e não os representa, assim sendo não há como dizer, segundo eles, que há disputa. Mas como fundamentar tal posicionamento, considerando que MST e outros movimentos que fazem parte da Via Campesina, em muitos momentos dão apoio e sustentação para o Governo do PT, assim como outros movimentos sociais, seja os movimentos de mulheres, da diversidade sexual, como também a grande maioria do movimento sindical, corroboram e se articulam intensamente na sustentação deste Governo.

No entanto, este processo tem demonstrado certo desgaste  e esgarçamento para a sua manutenção, seja pelas mobilizações que vem acontecendo no Brasil, de forma mais intensa e permanente nos últimos 3 ou 4 anos, realizadas principalmente por indígenas, pelos afetados pela hidrelétrica de Belo Monte, em função das obras da copa do mundo, pelo Passe Livre, pelo direito a terra pelos quilombolas, pelos direitos das mulheres, pelo direito a diversidade sexual, entre outras.

Mas então por que as atuais mobilizações tem essa “cara” e esse formato tão múltiplo e difuso?

Não acredito na tese de que a sociedade seria correia de transmissão das ações do Estado, no entanto no caso destas mobilizações populares, tal fundamento nos ajuda muito a entende-las.

Primeiramente gostaria de fazer uma relação não muito usual, mas lembrar dos tempos do governo FHC, no qual as mobilizações tinham cor, formato, alma, espírito e linguagem própria, ou seja, sabiam a que  vinham, sabiam qual era o inimigo e os aliados. Diante de um governo com digital e ideias bem solidificadas as mobilizações respondiam contrariamente de forma clara e precisa.

No entanto, neste momento, as mobilizações caracterizam-se por uma ambiência difusa, onde o consenso deixa espaço para o dissenso e para um clima de disputa, onde diversas forças sociais se apresentam como proponentes das soluções e das reivindicações verdadeiras e corretas para “concertar” o país. Sejam de direta ou de esquerda, estão lá, posicionadas nas passeatas e atos públicos, afirmando e reafirmando posicionamentos muitas vezes isolados e recortados de uma realidade social não tão recortada assim.

Como afirmei anteriormente, seria ingenuidade que mobilizações como estas pudessem ser explicadas apenas pelos fatores de que não há organização, não existem lideranças legitimadas, não existe movimentos sociais organizados na preparação e condução das ações, e por este motivo, pessoas individualmente com suas angustias e ansiedades vão para as ruas e se colocam da forma como bem entendem. Isto é uma explicação extremamente ingênua, pois para além do comportamento individual, é necessário que o espaço social e político, seja o ambiente da rua, mas também das animosidades e da legitimidade coletiva é que garantirá que os indivíduos possam participar ou não das mobilizações. No entanto, defendo a ideia de que esta ambiência das ruas só tem sido possível, pois estamos diante de um sistema político institucional que se coloca num ambiente de ampla coalizão de forças políticas, mas principalmente, se coloca como um sistema permanentemente em disputa, em conflito, assim como vem se dando as mobilizações Brasil a fora.

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